
Foi nessa idade que abriu seu primeiro negócio. Mais tarde, acumulou experiência nos setores de hotelaria e consultoria empresarial e ajudou diversas pessoas a empreender. Nesse processo, percebeu que havia poucas instituições dedicadas ao ensino sistemático de como iniciar uma empresa.
Essa constatação levou à criação da R. Miranda Formação Profissional, em 2001. O primeiro curso de empreendedorismo lançado pela instituição, no entanto, não conseguiu atrair alunos suficientes e fracassou. Na época, predominava no Brasil a preferência por empregos estáveis ou carreiras no serviço público em vez do empreendedorismo.
A experiência levou Miranda a reformular sua proposta educacional. Ele percebeu que quem deseja empreender busca, mais do que teorias gerais, aprender a desenvolver um negócio concreto em uma área de interesse. Os cursos foram reorganizados, e a atuação da instituição se expandiu para programas de pós-graduação e educação internacional.
Desde 2008, Miranda é reitor da URM — Universidade Roberto Miranda, localizada na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Em 2020, fundou a sede da URM Education Silicon Valley, em San José, na Califórnia, e passou também a exercer o cargo de chancellor da instituição.
O jovem que começou a empreender aos 17 anos em busca do próprio futuro tornou-se um educador dedicado a ensinar adolescentes a desenvolver autonomia para escolher seus caminhos.
“O empreendedorismo não é apenas uma técnica para abrir uma empresa”, afirmou Miranda. “É a capacidade de escolher o próprio futuro, identificar novas oportunidades e até criar empregos para outras pessoas.”
Miranda formou-se em Turismo pela Universidade Anhembi Morumbi em 1998. Em 2018, participou do programa IEM da Harvard Graduate School of Education. Entre 2022 e 2024, frequentou cursos na Universidade Stanford relacionados à criação de startups, à restauração de construções históricas e à inteligência artificial (IA).
Atualmente, também é fundador e presidente da Associação Brasileira de Apoio ao Turismo, Hotelaria e Gastronomia (PROTUR).
Sua experiência e filosofia educacional estão refletidas no Silicon Valley Boot Camp, promovido pela URM Education Silicon Valley. No programa, os estudantes aprendem sobre novas tecnologias e empreendedorismo, formam equipes e transformam ideias em modelos de negócio.
A seguir, os principais trechos da entrevista com o reitor Roberto Miranda.
— Que sonhos o senhor tinha durante a adolescência?
“Eu não sabia em qual área deveria construir minha carreira, mas tinha certeza de que queria ser empresário. Queria ter funcionários e liderar uma organização.
Esse desejo me levou ao empreendedorismo. Abri meu primeiro negócio aos 17 anos e, por volta dos 30, fundei uma escola para ensinar a outras pessoas o que havia aprendido e vivenciado. Queria mostrar o valor de uma vida dedicada ao empreendedorismo.”
— O que o levou a deixar a hotelaria e ingressar no setor educacional?
“Trabalhei durante muitos anos nos setores de hotelaria e consultoria hoteleira e ajudei muitas pessoas a iniciar seus próprios negócios. Nesse período, percebi que havia poucas escolas que ensinassem de maneira sistemática como abrir uma empresa.
Em 2001, criei uma instituição de educação empresarial. Em 2008, ela se transformou em uma instituição que oferecia cursos de pós-graduação. Posteriormente, passamos a desenvolver programas não apenas no Brasil, mas também em cidades como Paris, Nova York, Milão e Los Angeles.
Em 2020, decidimos estabelecer uma sede no Vale do Silício. O Vale do Silício é um lugar onde o empreendedorismo e a inovação estão vivos. Avaliamos que era o local que melhor correspondia aos valores que defendemos.”
— Qual foi o fracasso ou a dificuldade mais marcante que enfrentou? Como essa experiência influenciou suas escolhas posteriores?
“Em 2001, criamos nosso primeiro programa de educação empresarial, chamado ‘O Empreendedor Profissional’. O objetivo era ensinar os participantes a encontrar uma ideia e transformá-la em um negócio real.
Naquela época, porém, muitas pessoas no Brasil preferiam conseguir um bom emprego ou ingressar no serviço público em vez de empreender. Criamos um curso de empreendedorismo, mas não havia um número suficiente de pessoas interessadas em abrir um negócio. A primeira tentativa foi um grande fracasso.
Com essa experiência, aprendemos que quem deseja empreender quer adquirir conhecimentos especializados em uma área concreta de negócios pela qual tenha interesse. Esse aprendizado também está incorporado ao atual Silicon Valley Boot Camp.”
— Qual princípio orienta suas decisões mais importantes?
“É a convicção de que precisamos formar empreendedores e empregadores, ou seja, pessoas capazes de gerar empregos e renda.
Se faltam oportunidades de trabalho na sociedade, mais pessoas precisam estar preparadas para criar empresas e empregos. Quem gera postos de trabalho exerce impacto não apenas sobre si mesmo e sua família, mas também sobre muitas pessoas ao seu redor. O efeito social é muito significativo.”
— Que competências são necessárias para transformar uma ideia em ação?
“Hoje, o conhecimento está relativamente acessível a todos. Por isso, competências como inteligência emocional, comunicação, colaboração e perseverança se tornaram ainda mais importantes.
Valores, honra, respeito e honestidade também são fundamentais. Nosso objetivo não é apenas formar empresários que ganhem muito dinheiro, mas empreendedores éticos e responsáveis.
O estudante precisa ter o desejo de construir uma vida diferente. A educação deve cumprir o papel de transformar esse desejo em ação concreta.”
— Por que os jovens que viverão na era da inteligência artificial precisam aprender sobre empreendedorismo?
“A inteligência artificial está criando inúmeras oportunidades de negócios. Ao combinar a IA com tecnologias como robótica, visão computacional, computação quântica, realidade aumentada e realidade virtual, é possível desenvolver novos negócios com muito mais rapidez do que no passado.
Também diminuiu consideravelmente o tempo necessário para transformar uma ideia em um modelo básico de negócio com a ajuda da IA e levá-lo ao mercado.
Mesmo que o objetivo seja tornar-se médico, advogado, engenheiro ou executivo de uma grande empresa, é importante aprender empreendedorismo. Ao compreender e desenvolver as competências necessárias, a pessoa amplia sua liberdade para escolher o próprio futuro.
Ainda que não abra uma empresa, a capacidade de atuar como ‘intraempreendedor’, criando novos negócios e promovendo inovação dentro de uma organização, será cada vez mais importante em todas as profissões.”
— A inteligência artificial também está transformando o processo de criação de empresas?
“Sim. A IA já é utilizada em praticamente todos os setores, como no diagnóstico médico e no desenvolvimento de projetos de engenharia.
Sua aplicação em pesquisas de mercado, elaboração de modelos de negócio e desenvolvimento de produtos mínimos viáveis, os chamados MVPs, permite testar uma ideia com muito mais rapidez do que no passado. Não há razão para deixar essas ferramentas de fora da educação empreendedora.”
— Qual é o principal objetivo do Silicon Valley Boot Camp?
“O ponto central é desenvolver uma mentalidade empreendedora.
A adolescência é um período em que os jovens precisam ampliar sua maneira de pensar e descobrir um número maior de possibilidades. Considero que a faixa dos 14 aos 16 anos, em particular, é muito importante para ampliar as opções relacionadas ao futuro.
O Vale do Silício permite vivenciar diretamente o empreendedorismo, a inovação e as novas tecnologias. A maior transformação observada nos estudantes depois dessa experiência é a maneira como passam a enxergar o mundo.
O principal objetivo do programa é ajudá-los, ainda na adolescência, a desenvolver a capacidade de identificar oportunidades que outras pessoas não percebem e de imaginar o futuro.”
— Muitos adolescentes escolhem a carreira ou o curso universitário sob a influência dos pais.
“Não é fácil pedir a um jovem de 16 anos que decida agora, com precisão, o que estará fazendo daqui a sete anos. Também é natural que os pais exerçam grande influência sobre as escolhas dos filhos.
No entanto, quando os adolescentes têm contato desde cedo com um mundo mais amplo e compreendem diferentes possibilidades, podem se preparar para tomar as próprias decisões.
Mais importante do que escolher antecipadamente uma profissão específica é permitir que o jovem conheça e experimente suficientemente as possibilidades que tem diante de si.”
— Como o programa identifica as aptidões e competências dos participantes?
“Não é necessário chegar ao programa com conhecimentos ou experiência prévia em empreendedorismo.
Na primeira aula, utilizamos um sistema de avaliação chamado ‘Brain Game’ para observar as habilidades intelectuais, as competências emocionais e a criatividade dos estudantes.
Um empreendedor precisa reunir diferentes capacidades. Entre elas estão a criatividade para desenvolver novas ideias, o raciocínio lógico para avaliar a viabilidade e a rentabilidade de um negócio, a organização para administrar planos e cronogramas, a iniciativa para agir e a habilidade de se relacionar, colaborar e liderar pessoas.
O programa não se limita a transmitir conhecimentos empresariais. Seu foco é ajudar cada estudante a identificar as competências que já possui e aquelas que ainda precisa desenvolver.”
— Os participantes realmente desenvolvem um projeto de startup durante o boot camp?
“Após a inscrição, oferecemos materiais preparatórios e atividades para que os estudantes possam começar a desenvolver suas ideias de negócio antes do início do programa.
Durante o período de formação, eles aprendem sobre novas tecnologias e empreendedorismo, formam equipes e desenvolvem uma ideia de startup. Os participantes analisam qual problema sua proposta pode resolver e como ela pode se transformar em um negócio viável no mercado.
Ao final, apresentam suas ideias no Plug and Play, uma aceleradora de startups do Vale do Silício.
O mais importante não é a apresentação em si. O valor da experiência está em percorrer todas as etapas: encontrar uma ideia, formar uma equipe, testar e aperfeiçoar a proposta até transformá-la em um modelo de negócio.”
— Qual nível de inglês é necessário para participar?
“É necessário ter domínio suficiente do inglês para compreender as aulas e se comunicar adequadamente. Muitos participantes estudam em instituições com educação bilíngue.
Por outro lado, não é preciso ter experiência em empreendedorismo. A maioria dos estudantes tem seu primeiro contato com o tema durante o programa.
Para nós, mais importante do que avaliar o que os jovens já sabem é compreender quais capacidades poderão desenvolver no futuro.”
— Que mudanças o senhor observa nos estudantes após a participação no programa?
“Frequentemente, ouvimos dos pais que os filhos voltaram com um brilho diferente nos olhos e com mais confiança.
Para o estudante, ter aulas em ambientes como a Universidade Stanford e a Universidade da Califórnia em Berkeley, além de conhecer empresas e profissionais do Vale do Silício, pode gerar um grande senso de realização.
Alguns voltam à escola e passam a assumir funções de liderança na sala de aula ou em projetos. Apesar de ser uma experiência de curta duração, eles vivenciam muitas coisas e descobrem que são capazes de fazer muito mais do que imaginavam.”
— Há algum caso de participante que tenha sido especialmente marcante?
“Um estudante que participou do programa em janeiro de 2026 recebeu, após a apresentação final, o convite de um investidor interessado em conversar novamente sobre sua ideia de negócio. Uma semana depois, o jovem voltou ao Vale do Silício para se reunir com esse investidor.
Evidentemente, não podemos prometer que um estudante de 15 anos receberá investimentos por participar do programa. Seria irresponsável fazer esse tipo de promessa.
No entanto, o fato de um investidor real ter demonstrado interesse pela ideia criada por um estudante e realizado uma reunião posterior é significativo. Esse caso mostra que os jovens também podem vivenciar a possibilidade de transformar suas ideias em negócios reais.”
— Estudantes sul-coreanos também participaram em 2026. Como o senhor avalia a cooperação com a Coreia do Sul?
“Sabemos que a Coreia do Sul atribui grande importância à educação e investe ativamente nessa área. Estamos muito satisfeitos em cooperar com o país.
Neste ano, 15 estudantes sul-coreanos participaram do programa. A LG analisou previamente os materiais e enviou representantes à Califórnia para verificar pessoalmente o ambiente educacional, as salas de aula, o conteúdo do programa e o processo de avaliação das competências dos alunos.
A participação de estudantes sul-coreanos também está prevista para 2027. Consideramos relevante o fato de uma instituição que atribui grande importância à qualidade da educação ter escolhido nosso programa.”
— Que mensagem gostaria de transmitir aos estudantes da comunidade coreana no Brasil e a seus pais?
“Ampliar a visão de mundo durante a adolescência é um investimento importante no futuro. Se eu pudesse voltar no tempo, também gostaria de participar de uma experiência como essa.
Em vez de decidir o futuro dos filhos por eles, é importante que os pais os ajudem a conhecer mais possibilidades e a escolher o próprio caminho.
Se um estudante, depois de vivenciar diretamente a tecnologia e o empreendedorismo no Vale do Silício, passar a pensar ‘eu também sou capaz’, esse será o maior resultado que poderemos alcançar.”






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